20 de dezembro de 2010

Egoísta



Triste cegueira a do egoísta,
pois enxerga bem,
mas só consegue focar o próprio umbigo.

30 de novembro de 2010

15 de novembro de 2010

Essência.


As vezes as palavras são como uma essência,
concentradas,
deixando no ar um resíduo de sua presença,
perfume,
que desperta em cada um diferentes memórias,
emoções.

Quando o pouco diz muito,
os vazios também falam...


Agosto de 2010.

13 de novembro de 2010

Fome


Eu que já não sou
o que um dia talvez seria,
sinto que não se saiba
o que um dia nós quase fomos.

Há um tempo que não vivi,
mas tenho saudade.

Sendo que já não acho
que a vida espere, talvez um dia,
sinto,  não acredito,
e ainda insisto, quem sabe somos?

Sinto falta de um lugar
ainda não inventado.

Eu que já não ouço o que diria,
digo do amor que quase tive
que sem ser alimentado
morre de fome.




1 de novembro de 2010

Por tanto


Como podem os passarinhos?
Encantos
continuam cantando,
enquanto
do céu caem tantas lágrimas,
por tanto...

27 de outubro de 2010

É tarde.

É tarde.

O barulho da chuva, correndo incessante,
corta o silêncio soturno da noite.
Noturno.

Nada mais se ouve lá fora.
Algo mais que houve aqui dentro.
Lamento.

20 de outubro de 2010

Tudo e Nada




Como poderíamos nos sentir grandes se somos apenas um ponto dentro de um pequeno ponto azul no universo que agora dizem ter fim. Acabaria em um grande vácuo. Ora, então o universo não passa de um ponto dentro do nada. Trocando em miúdos: somos um pequeno nada dentro de um grande nada... Vácuo. Ainda assim em cada átomo do nosso nada ser está sintetizada toda a matéria, outro lado do vácuo, o Yin e o Yang, os opostos unidos são o Tao tudo e nada.


abril de 2001

16 de agosto de 2010

Olhos D'água



A água,
percorrendo sinuosos caminhos ,
esculpe a pedra que a absorve e filtra.

Brotam olhos d’água transbordantes
que matam a sede do peregrino.

Homem de pedra,
mulher de água,
do seu encontro nascem cachoeiras...

10 de julho de 2010

Diálogo entre bêbados


Da época em que o clube do Whisky ainda era da cachaça...


















-- Senta aqui. Eu divido minha sarjeta com você.

-- Quer?
-- Uma dola?
-- Não, um pedaço de Halls.
-- Eu quero saber o quê que eu quero...
-- Eu esqueci.
-- Eu não esqueci, só não tava me lembrando!
-- Eu não me lembro de ter amnésia...
-- O Zé apareceu, ele tinha ido comprar um cigarro!
-- O Zé é o Beto, né?
-- Existe um Beto?
-- Não. Existe um Zé.
-- Todo mundo tem seu lado Zé.
-- Quem nunca se sentiu Laura?
-- Eu me sinto Laura as vezes...
-- Eu tenho alergia a lágrimas!
-- Eu gosto de óculos escuros claro...

-- Apesar de morto, eu tô vivo!

4 de maio de 2010

Angústia



Observa em si a angústia crescente 
que preenche seu peito tirando-lhe o ar.

O silêncio maldito reverbera em seus pensamentos 
falando de coisas que só existem no vácuo absurdo 
de sua imaginação neuroticamente fértil..

Ainda que as ignore, não se dão por vencidas. 
Persistem clandestinamente em seus circuitos,
causando curtos em suas sinapses já falhas.

28 de abril de 2010

Retalhos.




No silêncio da noite soavam melódicos os pingos de chuva batendo nas folhas das árvores. Serviam como tema de fundo para os pensamentos que se chocavam em sua mente turbulenta, despedaçando-se em mil idéias incompreensíveis e aparentemente sem nexo. 

Assim, pequenas, as idéias se tornavam alcançáveis às suas mãos ávidas do toque distante. Assim, fragmentado, o fluxo incessante de pensamentos podia ser visto de perto, analisado por seus olhos sedentos de explicações que lhe sequem as lágrimas.

Aos poucos vai conseguindo ordenar, à sua maneira, os retalhos que lhe tecem a vida. Como que num encanto todos vão se encaixando, quase que sozinhos, buscando seus lugares numa composição bela e exclusiva que pertence somente a ela e aos que, de alguma forma, vão juntando outros retalhos na costura dessa história.

6 de março de 2010

Euforia



Acordaram cedo como era de costume, não queriam perder a hora. Vestiram as roupas que pareciam mais adequadas para a ocasião. Nenhum deles havia se preparado com antecedência, mas não fizeram feio no improviso. Apressadamente engoliram o café da manhã,  já se sentindo atrasados. Caminhando subiram a longa ladeira que os levaria a seu destino. Haviam outros subindo, como eles. Podiam lhes reconhecer pelas roupas e pela expressão estampada em suas faces.

Alguns surgiam em direção contrária,  corpos exauridos e vestes esfarrapadas demonstravam que voltavam do outro turno, mas ainda haviam vestígios daquela mesma expressão nos rostos já desfigurados. O burburinho num tom crescente como o morro que galgavam indicava a direção a ser seguida. O estrondo chegou até eles revelando a multidão ensandecida.

Como peregrinos desesperados chegando ao oásis prometido aceleraram os passos rumo a multidão que vinha em ondas.  Alegres marolas rebentando na praia, mar revolto às vésperas da ressaca, tsunami! Se viram envolvidos, perdendo o fôlego, quase afogados, tornando-se um com o todo. Seus movimentos já não lhes pertencia. Entregaram-se ao inevitável fluxo do oceano de corpos suados, sedentos, se afogando em cerveja que extravasavam águas há muito represadas. Criaturas inimagináveis circulavam pela correnteza, desafiando os limites da criatividade. Reis, princesas, palhaços, bailarinas, fadas, duendes, bruxas e vampiros,  ets e outros seres saltitantes não identificáveis desfilavam lado a lado representações arquetípicas das mais variadas facetas da personalidade. No meio deles perderam seu bêbado.

Seguiram os dois na inebriante euforia. Nada podia lhes roubar a alegria, tinham um ao outro. E ainda que por tantos passassem despercebidos, os mais atentos não conseguiam deixar de vê-los, estavam radiantes. Aonde iriam desse jeito? O que procuravam se pareciam já ter encontrado o que há de mais precioso na condição humana? Não se importavam com os olhares. Ela mal podia enxergar quem estava ao seu redor. Ele, ainda que visse, parecia não se abalar. Juntos continuaram. Se sentiam como uma gota na imensidão do mar.  Rufavam os tambores e o Carnaval explodia ao seu redor, como uma grande festa comemorando por eles. Parecia feita para eles. Então se beijaram e o mundo parou. Ela podia perceber os vultos se movimentando em câmera lenta ao seu redor, mas não os via. Seus olhos bem fechados contemplavam um mundo que pertencia somente aos dois. A música, embora ensurdecedora, soava distante. Estavam em outra dimensão. Os relógios desacelerando os ponteiros eternizaram o momento que durou poucos segundos. Somente eles existiam. Nada mais importa.

27 de janeiro de 2010

Carrossel elíptico











Flutua...

indiferente aos astros que a circundam
envolvida por nebulosas
sensações.

Sugada por um buraco negro de emoções
que circulam na velocidade da luz
em um carrossel elíptico
descrevendo órbitas planetárias.

Uma estrela quase decadente 
ilumina a poeira cósmica 
que sufoca 
constelações e galáxias.

Já não mais satélite,
não há gravidade no espaço,  
o presente
nascimento de uma super nova.




18 de janeiro de 2010

Perdida.




Perdida. Assim ela se sentiu, como a bolsa que ficou pra trás em algum recanto do caminho e não mais foi encontrada. Roubada. Tantas coisas vêm lhe sendo tomadas que já não se surpreende com a indefectível sensação de vazio inerente a perda. Não se desespera. Tranquilamente encara o destino no espelho, procurando encontrar a lição no erro, escondida entre entrelinhas certas e escritas tortas. Sinais.


As chaves que lhe abrem portas e caminhos estão por hora perdidas. Inalcançáveis. Subtraída em seu direito de ir e vir sente-se em uma gaiola. Trancada. Cercada pelas grades duras e frias das neuras que a aprisionam, lista mentalmente as atitudes que precisam ser tomadas, movendo-se quase que nada em direção a elas. Procrastina.

O celular, ícone de comunicação nesse mundo pelo qual transita incessantemente, deixa em seu rastro um vácuo na agenda. Isolada. Sem contatos de imediato perde a conexão com as pessoas que lhe rodeiam. Desconectada. Ainda que não admita, intimamente reconhece o alívio de não ouvi-lo tocar. Intocável.

Os documentos, que comprovam sua identidade e seu direito à propriedade, levaram consigo as escassas notas coloridas que ela escondera de si mesma. Foram-se. Ao menos ainda está com seu cartão. Ilusão. Ínfimo pedaço de plástico que nessa sociedade alicerçada sobre valores de posse e consumo é o passaporte para a solução de todas as suas perdas. Crédito.

Naquela noite os anjos estavam distraidos. Talvez tenham mesmo cochilado, sem forças pra acompanhar o ritmo frenético de um típico dia de verão carioca. Na madrugada em que até os amigos se esqueceram dela, um desconhecido a ajudou. Sozinha, sem nada, se viu observando de perto as duas faces do enigma humanidade: quanta sujeira e solidariedade podem ser encontradas em uma mesma noite, sob um teto qualquer da Lapa.

Agonia




Agonia.


Pensamentos sufocados pelos ecos do passado.

Tão recente. Tão distante.