17 de dezembro de 2009

Bom dia.


Acordo.
Ouço palavras doces, espontâneas e sinceras
cantadas pela voz filial
desafinada e amorosa
em uma declaração musical.
Um bom dia, uma poesia.

9 de dezembro de 2009

Escrever poesia...

Um pequeno esboço de meu dilema atual, descrito por uma mulher que, como eu, tentou ser muitas em uma só:


"Escrever poesia não se parece com nenhum outro trabalho; não pode ser bem-feito se só pudermos lhe dedicar o tempo de um intervalo nas tarefas domésticas - pelo menos no meu caso. O estado de espírito eficiente, que risca os artigos da lista à medida que se desincumbe das compras, das lavagens, da limpeza, das costuras e das outras tarefas do dia, destrói totalmente a melancolia levemente entediada que estimula minha imaginação."


Anne  Stevenson

3 de dezembro de 2009

1 de dezembro de 2009

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles



14 de novembro de 2009

Remediar com precisão!

-Você sabe como é que a gente remedeia com precisão?
-Quando você está com precisão de comprar uma coisa para comer ou vestir, e não tem condições, aí puxa a calma, passa dois ou três dias precisando daquilo. Lá pelo terceiro dia você amanhece vivo e vai arranjar as coisas. Você não morreu, você remediou com precisão!

D. Izabel Mendes da Cunha, mestre bonequeira do Vale do Jequitinhonha.
In Revista O Globo,  8/11/09

29 de outubro de 2009

Espelho D'água




Num espelho ondulante
refletindo craquelê de nuvens
um pescador.

Com água pelas canelas
mistura-se às garças
que o rodeiam.

O pôr do sol,
que se aproxima,
o céu aquarela.

Dourando
o vôo livre
da gaivota bailarina.

26 de outubro de 2009

Maestro!




Mimica que baila
discursa sem palavras
ao som da música que rege.
Há orquestra!

Altas notas afinadas
falam ao ouvido absoluto.
Tocando emoções,
conserta almas.


A João Carlos Martins, por sua inspiradora e determinada missão de difundir a música clássica brasileira e, principalmente, por sua obstinada dedicação, contra todas as dificuldades.

22 de outubro de 2009

Há caso




Fruto da sorte ou cria do acaso,

jogo do amor?
Tesão!

Aposta todas as fichas¿
Eu não!
Quem dá as cartas agora?

Há hora?

Brinca com a sorte,
 roleta russa de probabilidades,
viciada!

Sinuca de bico,
tacada de mestre,
sai pela culatra.

Xeque-mate!

Uma mão boa e jogo está ganho.
Uma mão boba.
Sorte?

Quando os dois chegam juntos!

20 de outubro de 2009

In sone


Noite escura, ouço calada.
Silêncio falado.
Sono.

Madrugada. O silêncio soa.
Solidão ecoa.
Insônia.

Alvorada. Solidão silencia.
Raiar do dia.
Sonho.

Passarada. O sol raiando.
Céu clareando...
Cantoria!

9 de outubro de 2009

Anatômico


O sistema
fica nervoso,
simpático.

A pupila,
menina dos olhos,
enxerga...

O coração
não segura emoção,
dispara!

Sangue azul
valva semilunar
ejeta!

Adrenalina
a luz da arteria
dilata!

Hiperventilação
gradientes de pressão
alteram...

A temperatura,
suando frio,
ajusta.

Tudo em fim,
um só fim,
equilibrio.

O encontro,
sinapse nervosa,
espera...

Sem defesas
corpos estranhos
devora...

Vê estrelas
céu da boca
saliva...

Dois ouvidos
para entender
uma lingua...

Nos tecidos
fluem
endorfinas...

A musculatura
perde a compostura
relaxa...

Os hormônios,
enxurrada,
mistério...

De alegria
lágrimas,
milagres...

Calafrio,
arrepio,
suspiro...

18 de setembro de 2009

17 de setembro de 2009

15 de setembro de 2009

Fuga...


O reencontro foi quase acaso. Teria sido, não fosse anunciado. À luz suave do crepúsculo que se aproximava tingindo de tons rubros céu, sal e areia, o ar tornou-se denso, quase palpável, pois nele se espalhava o incômodo sentido por ela. Preferiu não demonstrar. Agia naturalmente, como quem nada sente, pois nada pode esperar.

A noite caiu. Apressadamente ele se despediu como se subitamente houvesse lembrado de um compromisso inadiável. Visivelmente atrapalhado foi embora deixando os presentes atordoados por surpresa e incompreensão. As amigas se dividiam entre a revolta e o desprezo. Somente ela permaneceu tranquila em sua certeza, esperando calmamente o retorno que sabia certo, sem saber se sonho.

Mais tarde do que cedo, embora antes do que nunca, sem pressa, sem compromissos, apareceu. Transbordava sorrisos charmosos por sua boca antes tão desejada. Agia naturalmente, como ela, como se nada esperassem um do outro. Quase conseguiram acreditar em sua farça. Até que a noite se fez criança. Sem testemunhas, como se planejassem um crime, finalmente se entregaram um ao outro, ao que sentiram, liberando desejos reprimidos desde o início, sem liberá-los realmente. O amor se fez gostoso e estranho, como tudo entre eles, enfim.

Como se nada nunca houvesse sido ele foge, fingindo passar despercebido. Pensas que foge dela? Foge da dúvida. Esta que constantemente o persegue, o assalta a noite, roubando seu sono, levando seu sossego. Por isso prefere permanecer parado, na encruzilhada, sem sair do lugar. Esse lugar confortável ao qual se adaptou pelo comodismo inerte dos que não tem coragem de galgar novos cumes. Anda em círculos. Não há escolha sem perdas. Não há começo sem fim.

Afinal, do que foges? Por que voltou? Talvez porque ela lhe lembre certa cor da vida que já não enxerga com seus olhos embaçados pelas lágrimas que não se permite derramar.

9 de setembro de 2009

Verde esperança




Era só uma menina,
que da vida não sabia,
inocente e pequenina
política não conhecia.

Passatempos poucos tinha,
mas tudo era brincadeira
desenhava até no verso
do santinho do Gabeira.

Isso foi há muito tempo
a campanha era a primeira
promovida por meu pai
feita à sua maneira.

Um santinho diferente
não trazia seu retrato
frases bem inteligentes
representavam-no de fato.

Pois o tempo foi passando
a menina foi crescendo
aos pouquinhos foi mudando
e as malícias conhecendo.

Se desencantou do mundo
de tanto só ver sujeira
o desgosto foi profundo
mas sacudiu a poeira.

Fim da última campanha
que não foi a derradeira
numa multidão tamanha
encontrou com o Gabeira.

Veja só como cresceu
disse o nobre candidato
e a gente envelheceu
completou todo gaiato!

Parecia garantida
a tão esperada vitória.
Seria uma nova vida?
Mudaria nossa história!

Numa única jogada
a esperança foi embora...
Gente que não vale nada
tirou dele a sua hora?

Só que a esperança é verde,
mesma cor do seu partido,
mesma quando a gente a perde
sempre acaba ressurgindo.

Esperança nunca morre
vamos dar volta por cima,
quem tem coragem não corre,
hoje eu torço por Marina.

Uma humilde seringueira
que veio lá da floresta
defende o verde bandeira
dessa gente que não presta.

Sei que as chances são pequenas
de comemorar vitória
isso não será problema
pois na luta está a Glória!

O poder do bem não falha
a guerra nunca é perdida
mesmo perdida a batalha
ficaremos na torcida!

A menina, já mulher,
decidida, firme e forte,
está pro que der e vier
cara Marina, boa sorte!

Nesse sistema falido,
que chamam democracia,
já mais morto do que vivo
eu fico com a utopia!

E um viva a Anarquia!!!

31 de agosto de 2009

Migalhas


Não me alimentarei de migalhas
como um pássaro faminto
que busca seu pão.

Não cantarei na janela
palavras suaves
de amor ou perdão.

Não derramarei lágrimas
por demais preciosas
para perdê-las em vão.

Não perderei nenhum segundo
tentando entender
o que não possui explicação.

Apenas seguirei meu caminho...

Mantenho o passo firme do guerreiro
que conhece a batalha que o espera.
E o sorriso sereno da criança
que ignora os perigos que a espreitam.

Te encontro na próxima esquina.

27 de agosto de 2009

Semente.




O amor quase, ou impossível,
é terra fértil.
Onde semeio palavras
e colho poesia.

                                         Sinto uma fome insaciável...
                                         Por isso o alimento,
                                         ainda que me devore.




22 de agosto de 2009

Urubus.



Os urubus, negros como a noite,
planam contrastando ao céu azul da tarde,
numa coreografia espiralada que muito me lembra
o magnífico balé de suas primas gaivotas...
...
No entanto não dançam, como elas,
para saudar o espetáculo do sol próximo ao horizonte
despedindo-se nos últimos momentos de cada dia
ou realizando o milagre da ressureição na manhã seguinte.
...
Desconstruindo a banalidade previsível da lógica,
eles agradecem à vida
realizando uma homenagem quase mística
ao corpo putrefato que lhes servirá de alimento.



19 de agosto de 2009

17 de agosto de 2009

Em caminho II.


Nunca se sentira tão só. As elaboradas certezas, construídas arduamente ao longo do caminho, desmanchavam-se rapidamente entre seus dedos, como um castelo de areia lambido pelo mar. Projetos? Planos? Distantes e irreais como o canto de uma sereia bela e sedutora. Fazem parte do cenário insano e delirante de sua mente febril, onde a lógica se inverte para moldar-se ao seu bel-prazer.

Quem sou? Onde estou? Para onde vou? Percebeu-se repetindo sem cessar perguntas que ecoam através dos tempos, confundindo-se com a própria história da humanidade. Muitos sábios e filósofos já haviam feito esse questionamento antes dela, então por que acreditava que seria a primeira a encontrar uma resposta? Mesmo a si própria soavam arrogantes suas tolas expectativas, mas ainda não conhecera uma forma de ser diferente.

Horas intermináveis passaram voando em sua inércia doentia. O mundo parecia parado. Ou seria o seu mundo que estava parado? De sua janela via a vida correndo normalmente na monótona e entediante rotina das massas. A vizinha prepara o almoço. O jardineiro poda as plantas. Os carros continuam a passar na estrada. Como o mundo consegue continuar girando ignorando a pungência de sua dor?

Em vão tenta reunir seus cacos. Pedaços do passado, que já não se encaixam em lugar nenhum, surgem desafiando a lógica de sua trajetória. Caixas e caixas esvazia, parecendo procurar uma parte de si mesma que já não encontra em lugar algum. Sente-se como uma dessas caixas, vazia. Ironicamente, sente em seus ombros todo o peso da bagagem acumulada ao longo dos anos. E medo. Carrega consigo seus cadáveres?

Cai em si ao ruir de suas estruturas, construídas sobre o falso alicerce das certezas moldadas por ideais inatingíveis. Desmorona.

Em caminho.



Lá estava ela novamente. Cara a cara com o asfalto que tanto tentara evitar nos últimos dias. Atravessando a ponte deixou pra trás a Cidade Maravilhosa e o seu caótico trânsito urbano, que até pouco tempo lhe causava uma fobia incontrolável. O amor pela estrada aflora, reafirmando o seu gosto inato pela liberdade. Ou seria o eterno carma de mudanças incessantes herdado da bisavó cigana?

Viu-se sem destino. Mas bem sabia que, se observasse com um pouco mais de cuidado, poderia enxergas os multiplos destinos ofuscando-se mutuamente no horizonte. Tudo é apenas uma questão de escolha. Ou não? Todos os caminhos levam a romA? Talvez. Sentia na pele toda a adrenalina de um ciclo que se encerra, deixando atrás de sí o vazio criativo onde nascem todas as possibilidades.

É possível percorrer dois caminhos paralelos de uma só vez? Desafiando as leis da física, ela acredita que sim. E segue ensandecida tentando ocupar dois lugares no espaço ao mesmo tempo. Agora. Ou qualquer coisa perto disso. Deseja no seu íntimo que os caminho confluam harmoniosamente, tornando-se um só. Mas e se eles sse abrirem num ângulo agudo e se tornarem tão distantes que suas pernas já não possam alcançá-los, que farás?

Sem respostas permite que a dúvida rasgue-lhe ao meio, transformando-a em duas metades inertes que se arrastam dentro do louco furacão que se move todos os dias.